Descobrir o mundo é a nossa maior diversão!

Quando a gente escreve sobre viagem, é comum falar que fomos na Torre Eiffel, no Big Ben, que fizemos um tour por não sei onde, que fomos na praia, que comemos em um restaurante muito bom e etc. Mas o legal mesmo são as situações inesperadas. Um lugar que você acha sem querer, um mico que você paga, e também as figuras que você acaba conhecendo. Neste post vamos falar de uma dessas ilustres figuras: Murat, o mafioso de Dubrovnik.

No dia 31 de Julho de 2008 chegamos na calada da noite a Dubrovnik, na Croácia. Chegamos no aeroporto da cidade, que é um pouco afastado de centro, e tomamos um ônibus até a rodoviária local. Já era quase meia noite e estávamos famintos.

Em frente à rodoviária tinha uma pequena pizzaria ainda aberta, e fomos direto para lá. Chegamos na pizzaria e sentamos em uma mesa na calçada. Enquanto esperávamos atendimento, um BMW veio rasgando na rua e estacionou bruscamente em frente ao estabelecimento. Dele saiu uma figura gorda trajada em roupas estilo praia-chic: bermuda de tecido branca, camisa polo listrada, adereços e uma bela pança. Enquanto ele entrava, a acanhada garçonete nos disse que já tinham fechado a cozinha. Já estávamos nos preparando para sair quando ouvimos uns bons gritos em croata lá dentro, que deviam significar “Sua vagabunda, trata de acender o forno e atender direito que esses caras são turistas e é o dinheiro deles que paga a miséria do seu salário”.

Logo depois, o gordão estranho veio à nossa mesa e disse que poderíamos fazer o pedido que seríamos servidos. Foi a primeira mostra de poder do lendário Murat, um filho de croata com italiano, que eventualmente era o dono da pizzaria e provavelmente de mais algumas coisas em Dubrovnik.

Pizzaria Murat Dubrovnik

Comendo uma pizza e tomando uma breja após ordens do Murat.

Enquanto comíamos o Murat veio trocar uma ideia, com certeza porque deve ter se interessado pelas meninas (eram 3). Perguntamos se ele sabia como chegar na casa que alugamos e ele se ofereceu para nos levar no seu BMW. Não estávamos no centro histórico, mas mesmo nos arredores as ruas são estreitas e cheias de sobe e desce. Para o Murat, aquilo era praticamente uma Autobahn alemã, e ele facilmente atingia de 100km/h intercalados por violentas freadas para não cair do penhasco nas curvas.

No dia seguinte à noite fomos de novo na pizzaria do Murat comer um negócio. O laço de amizade do Murat com a galera se estreitou, e seus olhares eram maliciosamente direcionados às garotas, enquanto nos contava coisas sobre a cidade. Como resultado, ele convidou apenas as 3 garotas para um passeio a praias mais afastadas no dia seguinte, onde andariam de BMW e passeariam de barco. Sua faceta de mafioso começava a aparecer, mesmo porque ele fez algumas singelas insinuações que se quiséssemos algum tipo de droga (especialmente maconha), ele arrumaria. Uma das meninas ficou com medo e resolveu não ir, as outras aceitaram, mesmo a gente alertando que possivelmente elas teriam que ceder aos encantos do Murat ou seriam mortas no meio do Mar Adriático.

No meio da tarde seguinte ficamos felizes em ver que as garotas voltaram são e salvas, aparentemente intocadas, e disseram que o Murat levou elas para lindas praias que estavam longe de nosso alcance. E também que naquela mesma noite éramos convidados dele para entradas vip no East West Club, uma das baladas mais exclusivas de Dubrovnik, na praia de Banje, perto do Centro Histórico. Aí sim, começamos a gostar mais do gordinho! Uma balada na faixa era tudo que um bando de mochileiros falidos precisava.

Banje - Dubrovnik

A praia de Banje e à esquerda o East West Club.

Chegamos ao East West e fomos liberados na entrada ao mencionar que éramos amigos do Murat. Eu era o único brasileiro da turma, além de 4 mexicanos e 3 chilenos, e logo o gordo recebeu o apelido de “Sapodrilo” (Sapo com Crocodilo). O sapão estava lá dentro, ao melhor estilo mafioso na balada, cumprimentando todo mundo e interagindo com belas mulheres que estavam muito além do seu alcance, caso não fosse quem era. Murat nos recebeu e ficou especialmente empolgado em ver as meninas. A impressão que dava era que ele nos “engoliu” porque sabia que não tinha como convidar só elas, e que até compensava aturar a nossa presença.

Murat no East West

Olha ele aí! Murat na balada!

A balada era impressionante, à beira da praia, um cenário belíssimo. Não era muito grande e não estava super lotada, mas o público era bem selecionado. As mulheres pareciam modelos locais e os caras todos com pinta de rico. Dois franceses convidaram nossa amiga mexicana para ir até o iate deles que estava ancorado na marina de Dubrovnik (ela não foi). Enquanto Murat se jogava para cima de uma das chilenas, ia liberando bebida para todo mundo da turma. Combinamos com a chilena que ela chamaria ele para conversar e levaria ele para o balcão do bar. Aí, a gente encostava do lado e já ia pedindo bebida, tudo em nome do amigo Murat!

East West Club - Dubrovnik

Só gente rica, fina e bonita no East West. E a gente no estilo mochileiro.

Conforme o tempo passava e o nível alcoolico subia, Murat já tentava passar dos limites com nossa amiga. Ela começou a ficar com medo e teve que rechaçar os ataques do gordinho. A gente também começou a se preocupar, mas continuava bebendo na conta dele. Quando a balada começou a esvaziar, vimos uma cena impressionante. Murat fechou a conta e simplesmente sacou um bolo de dinheiro, preso com elástico, para pagar a conta. Naquele momento tivemos certeza que esse cara deveria mexer com drogas ou algo do gênero. Na hora de ir embora, ele ainda insistiu mais com nossa amiga, que se irritou e irritou um pouco a ele também. Sei que saímos meio que correndo da balada, sem parar de dar risada do gordão enquanto caminhávamos pela rua principal de Dubrovnik. Ao mesmo tempo xingamos muito nossa amiga por não ceder aos encantos do Sapodrilo. Sabíamos que certamente essa recusa nos renderia uma morte lenta e dolorosa nas mãos da máfia Dubrovniana, e no caminho até gravamos um vídeo para mostrar às nossas famílias os motivos de nossas mortes.

Dubrovnik

Fugindo da máfia pelas belas ruas de Dubrovnik.

Como estou aqui escrevendo para vocês, é óbvio que não aconteceu nada, mas foi uma das histórias mais hilárias desta viagem. Só evitamos passar na pizzaria de novo no dia seguinte para garantir!! Depois até ficamos amigos do Murat no Facebook mas ele sumiu de lá, quem sabe o que aconteceu né, esse povo da Máfia é complicado!

Se alguém aí por acaso teve o prazer de cruzar o Murat em Dubrovnik, conte-nos o paradeiro desta ilustre figura. Estas histórias são ou não são o que marca nossas viagens e o que mais damos risada quando a gente se encontra com a galera e relembra como foi?

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